Windows 8 ‘sem compromisso’ é como jantar só com um garfo

Cena clichê em filmes que retratam uma brusca ascensão social: o jantar com incontáveis talheres à frente do humilde protagonista. São tantos garfos e facas e colheres e outras coisas que pouquíssima gente conhece, cada item específico para dado tipo de alimento. A empatia para com o personagem, se não nascera até ali, surge imediatamente. A gente se coloca em seu lugar e pensa “poxa, como ele vai saber tudo isso!?”. Além de, claro, questionar a relevância que é fazer uma refeição usando uma dezena de talheres.

O jantar está servido. (Foto: O jantar está servido.)O jantar está servido. (Foto: Divulgação)

Trata-se de um exemplo extremo do que podemos classificar como adequação. No caso, adequação das ferramentas à situação, à refeição. É natural e benéfico dispormos de ferramentas adequadas às ações que desejamos desempenhar: pregar um quadro na parede é bem mais fácil com uma furadeira do que com um machado. Jogar futebol com uma bola é mais divertido do que com uma latinha amassada, por exemplo. Enfim, a adequação é essencial, mas perde-se quando é demais, como no caso do jantar com dúzias de talheres, ou de menos, como no Windows 8.

O Windows 8 traz intrínseco algo que a Microsoft chama de “computação sem compromisso”. Há diversas formas de explicar esse mantra, mas já adianto que não tem nada a ver com a qualidade do sistema, interpretação que talvez ocorra a alguém. A falta de compromisso não é com o trabalho em si, mas com o meio no qual o futuro sistema operacional rodará. Trocando em miúdos, a Microsoft quer dizer que o Windows 8 será pau pra toda obra, independente de onde você quiser rodá-lo. Tem processador x86 ou ARM? Ótimo. Seja tablet, desktop, notebook, ultrabook, megabook, masterbook, vai rodar. É, portanto, um contraponto extremo ao exemplo dos talheres.

Tenho minhas ressalvas quanto a isso. Muitas ressalvas. É como se estivéssemos à beira de um retrocesso que, para exemplificar, não precisamos sequer ir muito longe. Lembra do Windows Mobile? Não, não o Windows Phone, o Windows Mobile que, pouco a pouco, despede-se desse mundo? Então.

A metáfora do Windows Mobile era a mesma do Windows para computadores grandes, o objetivo era botar dentro do bolso a mesma experiência que as pessoas tinham com teclado e mouse. Havia o menu Iniciar e versões “pocket”, do Office, Internet Explorer, Media Player e outros programas. A própria identidade visual era fortemente baseada no Windows 3.11, com caixas de diálogo, botões e formulários bem parecidos, tudo acessível a toques feitos com uma stylus.

HTC Touch Pro2.HTC Touch Pro2 (Foto: Reprodução)

Seria exigir muito da Microsoft antecipar a (r)evolução das interfaces naturais em um sistema tão antigo quanto o WinMo. Mas quando essas deram o ar da graça personificadas no iPhone, em 2007, ficou mais do que evidente o quão arcaica era a proposta dos sistemas móveis de então — além do da Microsoft, PalmOS e Symbian. Era um caso de sistema inadequado ao hardware em que era instalado, só que ninguém tinha percebido até então, porque não existia um exemplo correto para escancarar o erro.

Temo que o mesmo se repita com o Windows 8 em desktops e notebooks. O sistema é fluído e bonito, mas é evidente que ele “foi feito com tablets em mente”. Com teclado e mouse, tudo parece estranho, desajeitado. As formas de entrada de dados são diferentes, não dá para unificar experiências sem alterações no software. Apps com versões para sistemas móveis demonstram isso há tempos; a transição do Reeder do iOS para o OS X demonstrou isso.

Ainda que tenha escorregado no início, o Reeder mostra que cada formato pede adaptações; mesmo entre os iOSes, de iPhone e iPad, há diferenças que levam em conta o tamanho das telas, de 3,5 e 9,7 polegadas, respectivamente. É essa a razão, a propósito, pela qual os apps para tablets Android são tão ruins: eles não passam de “apps sem compromisso”, provando mais uma vez que essa abordagem é suicida — basta ver o fracasso em vendas e apelo popular que são os tablets com o sistema do Google.

A proposta “tamanho único” do Windows 8 é arriscada demais. Pessoas comuns terão sérias dificuldades em se adaptar ao novo ambiente e a troco de vantagens duvidosas. Com apps em tela cheia, perde-se muito da multitarefa característica de sistemas desktops. Com monitores widescreen cada vez maiores, é um grande desperdício limitar a dois os apps visíveis na tela.

Há casos em que o one size fits all é uma boa pedida para hardware. Aproveitando o gancho, a Apple é a que melhor faz isso: há um iPad, um iPhone, poucos notebooks e all-in-one, todos com variações mínimas, principalmente no que diz respeito à capacidade de armazenamento.

Nem sempre, ou melhor, quase nunca ter muitas opções de bens de consumo é uma boa pedida. Outras fabricantes de smartphones notaram que isso é benéfico ao consumidor e começam a esboçar estratégias semelhantes, como a linha One, da HTC. Em software? É mais complicado. Ainda mais com a liberdade que a plataforma X86 dá aos usuários, com configurações, tamanhos de telas, resoluções e outros fatores que geram combinações/setups infinitos.

HTC One: menos é mais.HTC One: menos é mais (Foto: Divulgação)

Rola um rumor de que por volta de 2015, na próxima geração do Windows, portanto, a Microsoft unificará o kernel de todas as suas plataformas domésticas — o próprio Windows, Windows Phone e Xbox usariam o mesmo núcleo. Mudaria o shell, a casca, o que o usuário vê. Sob o ponto de vista operacional, é uma ideia interessante, principalmente porque ela preserva a interface de usuário que, como bem se sabe, deve se adequar ao formato em uso.

É muito estranha essa forçação de barra da Microsoft com tablets e desktops unificados quando se vê, independente do tal rumor se concretizar ou não, soluções recentes tão elegantes e adaptadas como o último dashboard do Xbox 360 e o Windows Phone. Custava ser o Windows 8 um “Windows for tablets” e o sucessor do Windows 7 algo pensado exclusivamente para configurações WIMP?

A essa altura, a Microsoft não voltará atrás, só nos resta esperar e ver como será a recepção do novo sistema. O Windows mais diferente da história pode ser um enorme sucesso, bem como um fracasso sem precedentes, maior até que o do Windows Vista.

Fontes e Direitos: Rodrigo Ghedin Para o TechTudo – 16/04/2012 07h00.

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Autor: Junior Galvão - MVP

Profissional com vasta experiência na área de Tecnologia da Informação e soluções Microsoft. Graduado no Curso Superior em Gestão da Tecnologia de Sistemas de Informação. Pós-Graduado no Curso de Gestão e Engenharia de Processos para Desenvolvimento de Software com RUP na Faculdade FIAP - Faculdade de Informática e Administração Paulista de São Paulo. Pós-Graduado em Gestão da Tecnologia da Informação Faculdade - ESAMC Sorocaba. Formação MCDBA Microsoft, autor de artigos acadêmicos e profissionais postados em Revistas, Instituições de Ensino e WebSistes. Meu primeiro contato com tecnologia ocorreu em 1995 após meus pais comprarem nosso primeiro computador, ano em que as portas para este fantástico mundo se abriram. Neste mesmo ano, comecei o de Processamento de Dados, naquele momento a palavra TI não existia, na verdade a Tecnologia da Informação era conhecida como Computação ou Informática, foi assim que tudo começou e desde então não parei mais, continuando nesta longa estrada até hoje. Desde 2001 tenho atuado como Database Administrator - Administrador de Banco de Dados - SQL Server em tarefas de Administração, Gerenciamento, Migração de Servidores e Bancos de Dados, Estratégias de Backup/Restauração, Replicação, LogShipping, Implantação de ERPs que utilizam bancos SQL Server, Desenvolvimento de Funções, Stored Procedure, Triggers. Experiência na Coordenação de Projetos de Alta Disponibilidade de Dados, utilizando Database Mirroring, Replicação Transacional e Merge, Log Shipping. Atualmente trabalho como Administrador de Banco de Dados no FIT - Instituto de Tecnologia da Flextronics, como também, Consultor em Projetos de Tunnig e Performance para clientes, bem como, Professor Titular na Fatec São Roque. Desde 2008 exerço a função de Professor Universitário, para as disciplinas de Banco de Dados, Administração, Modelagem de Banco de Dados, Programação em Banco de Dados, Sistemas Operacionais, Análise e Projetos de Sistemas, entre outras. Possuo titulação Oficial Microsoft MVP - SQL Server renovada desde 2007.

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